sábado, 21 de maio de 2011

A Luta do Cristão

Cristão luta com Apolion no
Vale da Sombra da Morte
(O Peregrino, John Bunyan)
Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes. — Efésios 6.12
Conheceis a admoestação que S. Paulo nos fez quanto as isso, ou seja, que a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os ardis ocultos do nosso inimigo espiritual. Assim, não desperdicemos as nossas energias com os homens, antes nos posicionemos contra Satanás para resistir a todas as suas maquinações contra nós, já que, sem dúvida nenhuma, foi ele o autor do mal que vos acometeu, para impedir o progresso do evangelho e, até mesmo, que tudo fosse transtornado. Portanto, Senhor, esquecendo as faltas e perdoando aqueles a quem considerais vossos inimigos, aplicai toda a vossa mente em repelir a malícia de Satanás, que dessa maneira os envolve na destruição deles mesmos, ao buscarem a vossa ruína. Tal magnanimidade não só será agradável a Deus, mas vos tornará no mais amado dentre os homens. E não duvido que tendes por isso tanta consideração quanto devíeis.

No entanto, Senhor, deveis também considerar que se foi do agrado de Deus humilhar-vos por pouco tempo, não o foi sem motivo. Pois, embora sejais inocente com respeito aos homens, sabeis que diante do grande Juiz Celestial não há nenhum vivente que esteja isento de culpa. Ora, os santos têm honrado o cajado de Deus desta maneira: submetendo-lhe o pescoço e curvando a cabeça até o chão, sob a sua disciplina. Davi andou retamente, mas ele mesmo confessou que lhe fora bom ser humilhado pela mão de Deus. Por isso, logo que provarmos alguma punição, seja qual for, o primeiro passo deveria ser nos recolhermos em nós mesmos e examinarmos bem a nossa vida, para apreendermos aquelas bênçãos que nos têm sido ocultadas, pois algumas vezes a prosperidade demasiada obscurece-nos a vista, para que não percebamos por que Deus nos repreende. É no mínimo razoável que lhe concedamos ao menos tanta honra quanto concedemos ao médico, pois cabe a ele a cura de nossas doenças internas, as quais desconhecemos, e a prescrição do tratamento, não segundo o nosso gosto, mas conforme ele sabe e julga ser apropriado.

[Carta de Calvino ao Protetor Somerset, após sua primeira desgraça. Posto em liberdade em 6 de fevereiro de 1550 pelo favor do rei, seu sobrinho, reassumiu o posto no Conselho Privado, mas sem o título e a dignidade de protetor.]


 

Autor: João Calvino (1509–1564)
Fonte: Thyne is my heart, Devotional readings from John Calvin, RHB, 2006, (org. J. H. Kromminga), nº 151.
Tradutor: Marcos Vasconcelos
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